quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Nove

Dos números nunca fui fã
  mesmo sabendo que a Matemática é uma Ciência perfeita 
Nove não é um número bíblico
Não são nove as pirâmides do Egito
Mas num dia nove passeia a entender que beijar pode ser perto de chegar ao paraíso 
Aprendi na Mitologia que o nove representa o fim de um ciclo para que outro renasça 
O nove na Simbologia representa total realização do homem
       REALização
Tal como me senti quando seus lábios tocavam os meus 
O nove representa o amor universal 
Que número certo escolhemos sem querer 
    pra representar nossa conexão espiritual
      O nove contém todas as experiências dos números anteriores 
Que bonito que é o nove
Como também é bonito seu corpo branco contrastando com os cabelos negros 
    e sua expressão serena que por mais de nove vezes contemplei 
E por nove vezes dei a volta em torno de mim
Esse nove na Geometria é o número perfeito
Os ângulos 90 graus que juntos formam o círculo que não tem começo e nem fim 
Como não tem fim e nem começo
        o encantamento que vem da sua boca pequena 
 e do seu meio sorriso 
Que os números são perfeitos isso eu já sabia
Mas não sabia que perfeito era tudo que eu sentia

Cíntia Maria

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Domingo

Domingo de um mês qualquer
Visto uma camiseta dos Beatles.
Sem ao menos ter bebido,
 uma sensação de embriaguez percorre meu corpo
Deito para ler um romance idiota de um escritor gaúcho desconhecido
Onde o personagem principal imita a minha vida monótona.
No livro um cara que trabalha num café no centro da cidade
         se apaixona – perdidamente – por uma patricinha linda
Assim como eu, o cara é aspirante a escritor,
                obsessivamente pensa na garota,
fica com ela, mas não sabe se a tem,
cita dia e noite escritores que ela não conhece e nem quer conhecer,
a garota, que não é dele, se sente especial,
                               amada,
mas cada encontro parece uma despedida.
No meu romance da vida real, são quase 2 horas da madrugada na Alemanha
Não, não estou na Alemanha,
Sigo na minha comunidade lacustre onde sempre estive
e onde sempre gostaria de estar se ela estivesse aqui
Mas, ela está na Alemanha e até a minh’alma venderia para poder ver novamente seu rosto
Na verdade, gostaria de estar em seus braços
Escutando o barulho do seu coração
                Que mais parece uma sinfonia de Bach.
Acontece, que diferente do romance gaúcho, eu não trabalho num café
E após 18 horas de plantão entre mortos,
feridos,
histéricos
e fóbicos
Deitei pra pensar na imagem mais bonita que povoa a minha mente
Ensaie poemas do Neruda e do Vinicius que não vou recitar
E calculei o tamanho do seu dedo que colocarei o anel representando o pedido que não fiz
O que ela quer de mim?
Apenas que eu não vá
Mas não tenho pra onde ir
Calculo as moedas no meu bolso
                e peço um açaí com gosto de abacate que me faz lembrar seu beijo
Talvez a minha vida se baseei num romance barato
Como o que tenho nas mãos
Publicado por alguma editora de universidade que a gente paga pra ser lido
E que sobra nas estantes,
                pelos cantos
Que ninguém deixará pros filhos
E nem indicará pro melhor amigo
Por alguma razão desisto do livro
Só não desisto do cheiro dos seus cabelos
Nem da lembrança da sua voz
Conto os dias no calendário e as horas que faltam pra sua chegada
 E então resolvo dormir para que que os dias se apressem
Como quem dorme com fome acreditando que acordará saciado.


Cíntia Maria 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Sofro de patologias
     estou enlouquecendo
Penso ao andar impaciente de um lado de ao outro 
A fome se foi
Há um misto de todas as sensações 
Meu coração dispara 
Vejo sua imagem
‘Não feche os olhos ou vou te beijar
As frases aparecem de forma confusa
Vozes cantam ao meu ouvido
Sofro de patologias
  estou me perdendo
preciso sair
mas quero tocar seu rosto
Nego a mim, nego aos meus
Mas não nego o brilho nos olhos
Nem os pés que insistem em dançar
            Sofro de patologias
sigo te querendo
 mesmo ao fim do contrato que diz que devo partir
volto
quero seus braços.
Sofro te patologias
te confundo com um anjo
seu cheiro permanece em mim
ainda que eu arranque as roupas
a pele
a vida.
Terapias não me encontram
Soluções não me animam
Sofro da patologia sem cura
a de seguir te amando


Cíntia Maria 
Há morte em todos os corredores que ando
Ouço gritos, vejo dores,
há um acúmulo de sensações que me corroem o corpo
e me transportam para nuvens que são silêncio.            
Um senhor a meia luz diz que sofro de ansiedades
Mas o que anseio?
Meu corpo ganha medidas, me envergonho no espelho
Sofro a ausência dos que não foram,
Choro sem lágrimas as dores que não são minhas.
Mas onde há vida para que eu possa poetizar o vazio que sinto
                                     O sorriso da praça;
O beijo dos namorados e
   crianças que brincam na chuva?
Onde há luz para que eu possa crer que vidas ressurgem?
Onde há verdades para que possa crer na amizade?
Me perco em rotinas traçadas para mim que nunca fiz,
em sonhos engavetados que nem eram meus.
Ouço barulho dos que choram fraturas,
                         Faturas,
                                       arrependimentos.
Tudo parece distante...
... não vejo afetos
Não há braços.
Mas ao longe escuto um canto de
uma Voz Doce que embala a Esperança.
Sento para ouvir
e passo a crer que a vida ainda não me engoliu
Não penso mais na cotação do dólar
A luz ressurge nos corredores mesmo quando a morte decidiu passar
                               Me resgatando do vazio;
                trazendo a pulsão da vida...
 um Anjo me sorri.


Cíntia Maria

‘ela


Ela tem perturbado meus dias,
  meus sonhos
Minhas fantasias e imaginações
Não sei ao certo se são os olhos
A cintura
                ou a mão que delicadamente ela coloca na barriga ao sorrir.
Talvez Neruda quisesse ser penteador dos seus cabelos;
Drummond fizesse dela Um Mito;
 Machado não encontraria nela a simulação
E Luís da Silva não sofreria de angústias ao enamorá-la.
Ela é poesia
Encanto
   e arte.
Falta-me tempo para celebrar todas as suas qualidades
Não sei ao certo se é a voz;
                               o sorriso;
         ou a doçura nos gestos.
Terna
  e-terna!
Não há nela o que eu não ame
Desde que me sorriu os passos são leves
Passei a conhecer as regras do amar, quando só conhecia as do escrever
Deixei o amor entrar
O canto...
...virou encanto
Sou menos que um poeta precário
 e não sei ao certo se ela me vê
quando discursa sobre termos de uma Ciência que desconheço
Junta os prefixos e sufixos com a mesma naturalidade que dança
E fala de mistérios, política
me bombardeia
                Eu que não compreendo
Contento-me em vê-la
 e até me apavoro...
    mas volto a ser a luz


que ela graciosamente acendeu.


Cíntia Maria

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Arrependimentos

Será meio tarde pra
largar tudo e escrever versos nas ruas
Para putas e bêbados,
Com aquele cabelo moicano que nunca cortei?
A esquerda e não a direita
Cheguei na idade dos arrependimentos
Comecei bloqueando pessoas
datas
lembranças,
emoções...
Daquele aceno dado a moça na praça
Do violão que me deram e já não me servia
De ter saído naquele dia chuvoso
Do falso amigo que chamei de irmão,
A esquerda e não a direita
 A vida me deu lições que demorei a entender.
Arrependimentos me doem a alma
Me apertam e me perguntam como teria sido se ao contrario fosse
A esquerda e não a direita
Me arrependo de não ter sido eu
Cheguei a cogitar se os meus pais se arrependem de mim
e se outros mais se arrependem de mim
se a Existência se arrepende de mim
Dobro a rua da solidão
Com marcas no joelhos e dores no pensamento
A esquerda e não a direita
Me arrependo de ter nascido,
                Como se minha fosse a escolha
Das frases que troquei com o moço idiota
                               Quando esperávamos o trem para Lugar Nenhum 
A esquerda e não a direita
Privação,
                Frustração,
Castração.
Como um velho que vê os cabelos mudando de cor,
       perco o brilho e os sensações.
Vago na lama dos becos
Procurando sorrisos que não estão lá
Nem esquerda e nem direita
Sigo sozinha sem deus... nem esperança.


Cíntia Maria 

domingo, 12 de julho de 2015

Não há luz

Meu celular super moderno não possui mais bateria
Não uso mais rádio de pilha
Nem tenho disponibilidade para conversar pessoalmente
Mal consigo enxergar minha gata branca
 pedindo afeto na escuridão
A vela brilha sozinha obrigando a me concentrar somente nela
Não lembro a última vez que me fixei em algo só
Havia gente que estudava em noites sem luz,
                               mas possuía pensamentos iluminados
Não muito longe meus pais viveram sem eletricidade
                Reunidos na porta,
                               contavam histórias
admiravam a lua,
 tinham medo de lendas
apreciavam o diálogo e ouviam os idosos.
Hoje aprecio o meu notebook, meu iPad, meus jogos
Não que eles sejam ruins
Mas o que eles me roubaram que sem eles fico perdida?
Vivo com presentes que são distantes
Perdi o brilho dos olhos
                o som do violão na porta de casa
o sorriso barulhento das crianças
Troquei o cinema por um filme online
Temos tudo a um clique
                e permanecemos intocáveis
sozinhos...
Não há luz...
Nem elétrica, nem a que inspira versos
Não há cheiro
E todo o colorido é incolor
Não há cheiro de pipoca na praça
                Nem no cangote da moça
E penso no colorido dos ícones do meu celular
Que se ofuscam pelo brilho da vela
O que eles me roubaram?
Continuo a me perguntar
Onde estão as pessoas que são Poesia?
Só vejo as que se escondem na virtualidade fingindo coragem
Brigas em torno do desconhecido novo ídolo da tv
Não existem braços para me apertar
As salas de bate papo existem e ninguém se conhece
 O sarau já não existe mais
Não há luz e sou obrigada a pensar
O que a eles me roubaram?
Levanto-me e sento ao lado dos meus pais na porta
Eles me contam com saudade os tempos vividos
Apontam com o queixo a escuridão,
                mas há neles um brilho...
A chuva cai mansinha
reclamamos dos mosquitos
sinto falta de um tempo que não era meu
Vejo um jovem rapaz que me corteja tirando o chapéu,
                me recita um belo poema enquanto aceno da janela
... o poste se acende e me arranca os pensamentos
Caminho para escuridão da luz.

[Cíntia Maria]

Fruta Roxa

 Vejo crianças brincando no mar e lembro de um tempo em que eu não conseguia definir que cor eu tinha     pois eu era da cor que o sol pinta...