terça-feira, 29 de setembro de 2015

Arrependimentos

Será meio tarde pra
largar tudo e escrever versos nas ruas
Para putas e bêbados,
Com aquele cabelo moicano que nunca cortei?
A esquerda e não a direita
Cheguei na idade dos arrependimentos
Comecei bloqueando pessoas
datas
lembranças,
emoções...
Daquele aceno dado a moça na praça
Do violão que me deram e já não me servia
De ter saído naquele dia chuvoso
Do falso amigo que chamei de irmão,
A esquerda e não a direita
 A vida me deu lições que demorei a entender.
Arrependimentos me doem a alma
Me apertam e me perguntam como teria sido se ao contrario fosse
A esquerda e não a direita
Me arrependo de não ter sido eu
Cheguei a cogitar se os meus pais se arrependem de mim
e se outros mais se arrependem de mim
se a Existência se arrepende de mim
Dobro a rua da solidão
Com marcas no joelhos e dores no pensamento
A esquerda e não a direita
Me arrependo de ter nascido,
                Como se minha fosse a escolha
Das frases que troquei com o moço idiota
                               Quando esperávamos o trem para Lugar Nenhum 
A esquerda e não a direita
Privação,
                Frustração,
Castração.
Como um velho que vê os cabelos mudando de cor,
       perco o brilho e os sensações.
Vago na lama dos becos
Procurando sorrisos que não estão lá
Nem esquerda e nem direita
Sigo sozinha sem deus... nem esperança.


Cíntia Maria 

domingo, 12 de julho de 2015

Não há luz

Meu celular super moderno não possui mais bateria
Não uso mais rádio de pilha
Nem tenho disponibilidade para conversar pessoalmente
Mal consigo enxergar minha gata branca
 pedindo afeto na escuridão
A vela brilha sozinha obrigando a me concentrar somente nela
Não lembro a última vez que me fixei em algo só
Havia gente que estudava em noites sem luz,
                               mas possuía pensamentos iluminados
Não muito longe meus pais viveram sem eletricidade
                Reunidos na porta,
                               contavam histórias
admiravam a lua,
 tinham medo de lendas
apreciavam o diálogo e ouviam os idosos.
Hoje aprecio o meu notebook, meu iPad, meus jogos
Não que eles sejam ruins
Mas o que eles me roubaram que sem eles fico perdida?
Vivo com presentes que são distantes
Perdi o brilho dos olhos
                o som do violão na porta de casa
o sorriso barulhento das crianças
Troquei o cinema por um filme online
Temos tudo a um clique
                e permanecemos intocáveis
sozinhos...
Não há luz...
Nem elétrica, nem a que inspira versos
Não há cheiro
E todo o colorido é incolor
Não há cheiro de pipoca na praça
                Nem no cangote da moça
E penso no colorido dos ícones do meu celular
Que se ofuscam pelo brilho da vela
O que eles me roubaram?
Continuo a me perguntar
Onde estão as pessoas que são Poesia?
Só vejo as que se escondem na virtualidade fingindo coragem
Brigas em torno do desconhecido novo ídolo da tv
Não existem braços para me apertar
As salas de bate papo existem e ninguém se conhece
 O sarau já não existe mais
Não há luz e sou obrigada a pensar
O que a eles me roubaram?
Levanto-me e sento ao lado dos meus pais na porta
Eles me contam com saudade os tempos vividos
Apontam com o queixo a escuridão,
                mas há neles um brilho...
A chuva cai mansinha
reclamamos dos mosquitos
sinto falta de um tempo que não era meu
Vejo um jovem rapaz que me corteja tirando o chapéu,
                me recita um belo poema enquanto aceno da janela
... o poste se acende e me arranca os pensamentos
Caminho para escuridão da luz.

[Cíntia Maria]

terça-feira, 5 de maio de 2015


Com o que você ocupa os seus vazios:
Arte
            Música,
Poesia,
         Dança
Ri
Corre
Conta estrelas
Ou ama?

Com o que você ocupa seus vazios:
Mente
Engana
Trai
Dissimula...?
Do que você ocupa você?
Pergunto isso ao olhar um jovem sem planos
Será que ele sabe que viver é para além de existir...
Parado ele me olha
Cantarolo Tom num tom errado
E penso nos vazios que não se ocupam nunca

Mas e eu...
... com o que eu ocupo meus vazios?
Tentando encontrar dinheiro em dias pesados
Mentindo pra mim fingindo que não minto pros outros,
Com Rilke, Caetano e Chico
Com doces de gente triste em festas alegres

Onde encontro o que ocupa meus vazios
de família,
De amores
 De dores
Cicatrizes
De derrotas e de pancadas que a vida me deu?

Mas com o que a gente ocupa o que não se ocupa?
De vazios sou feita
E tentar preenchê-los é que me mantém.

Cíntia Maria

sexta-feira, 27 de março de 2015

Eu poderia


Eu poderia não me perder num desejo de ser um só
temer
e recuar...
Não viver o que de mais belo a vida me deu
Poderia não me perder no seu sorriso
No seu olhar
Nas curvas do seu corpo
Nos seus caminhos
 e nos aviões que partem
Poderia ter pequenos planos
Amores frágeis
e um coração inconstante...
Porém, há em mim algo mais forte que uma fé
Mais seguro que uma religião qualquer
E ainda mais bonito que um céu estrelado
Nasce em mim um Shakespeare ou um Neruda
Um Chico Buarque que toca enquanto você me beija
Há poesias nas esquinas cinzas
Há alegrias nas crianças
Uma vida que ganha cor
Há leveza nos barcos que balançam na praia enquanto a gente se olha
Doces devaneios
Aspirações futuras
Há sabores jamais experimentados
Há futuro no presente
Eu poderia chamar de sorte,
               merecimento,
destino
               ou até mesmo de sonho...
                Mas chamo-te Vida!
Para além de corpos que se tocam
Fazemos amor com as palavras
E em qualquer lugar que você estiver comigo haverá um céu azul
Isso seria de todo suficiente para que eu me perca
Pois me perdendo eu me encontrei
Em mistérios e luzes
Em balões que flutuam no ar
Em chuvas doces que molham plantações
Em imagens e sons
Encontrei-me num abraço
e onde era dor, fez-se cura
Onde havia medo
Nasceu a flor.


Cíntia Maria

sábado, 7 de março de 2015

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
Digo olhando em seus olhos que sorriem
Ela não consegue sentir
Enquanto isso o céu que se toma de um laranja incandescente
Penso num poema do Lêdo Ivo que não sei recitar
Penso que o mar está em todo lugar
E fecho os olhos pra sentir a brisa

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
mas carros e gente movimentam-se apressados
Distração virou celular
Nem os animais parecem ver toda a beleza do Velho Centro
Com prédios em ruínas que ameaçam cair
esquecidos como uma tia velha num asilo qualquer
As fachadas das lojas não deixam ver a beleza de histórias
Todo pensamento é consumir.

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
Nas praças ninguém compartilha a sensação,
amizades
ou jogos
Há medo nos lugares
Terror nas esquinas...
Ainda assim consigo ouvir o sino da Catedral
E quando ele soa não penso nas dívidas, nos sonhos, e nem casa
E pra lugar algum eu iria se eu tivesse onde ir

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
Mesmo onde Mar e Riacho tornam-se Salgadinho’s
E tudo nas margens é poluição e ingratidão
Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
ainda que ninguém pareça  saber cuidar do público, do privado
e nem de si...
O doce se torna amargo quando crianças se humilham no sinal por dinheiro,
drogas
ou pão...
E se distanciam de encontros com Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Guimarães Passos e Djavan
Os passos são outros
e [não] sabemos ao certo a quem devemos culpar
Pouco funciona aqui.

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade,
E no fundo somos como caranguejos andando de lado para não encarar a lama de frente: vivemos como sururu.
Mas o cheiro do mar se mistura ao o doce e
Sentimos a esperança advinda:
Da beleza dos versos dos poetas;
Da vida dos peixes que pulam nas caiçaras;
Da singeleza dos artesanatos,
Da criativa delicadeza dos nossos artistas e
do desejo de tanta gente que anseia um lugar ao sol
E faz disso arte sobre si e para o mundo

Há cheiro de açúcar por toda essa cidade
E tudo isso sei, porque a tudo isso pertenço.


[Cíntia Maria] 

Nem mesmo os clássicos poetas          poderiam narrar as madrugadas em que feliz       me abraço ao abraço dela   E agradeço a Deus ...