domingo, 29 de junho de 2014

A rede da minha infância



A rede da minha infância balança,
Com a mesma leveza
 de quando a minha única preocupação,
 era saber se Capitu traiu ou não Bentinho.
Ou por que diabos Quincas Borbas,
 tinha um cachorro com o nome igual ao seu.
Balança
... como balançam os finos galhos do pé de carambola do meu quintal
Que se confundiam com o meu corpo magro
Quando o vento passava e eu ameaçava cair
A rede da minha infância num dia cinza balança
Fecho os olhos e sinto o cheiro da estrada de barro
A terra molhada;
A corrida até o mangue;
Os trovões que anunciavam os caranguejos
A gente corria pra mergulhar na lagoa
e esperar o sol, como quem espera a vida chegar
Sentar e aguardar o momento em que o verde era do jeito exato dos nossos sonhos
E tentar pintar o que víamos,
 pra que essa imagem não mudasse nunca
mas sempre mudava e continuava igual.
A rede da minha infância me traz histórias de tios
Do contato com os peixes,
Das dificuldades vividas,
Das quedas do pé de cajueiro
Das mangas pisadas
Da casa das sete janelas
Que eu nunca morei, mas era também minha.
A rede balança
Traz
                                               e leva memórias...
fala de sonhos
Tem a inquietação de poetas desassossegados
A rede balança junto com os anos
junto às bicicletas que me derrubaram
deixando cicatrizes em meu corpo
cicatrizes que a vida também me deu
Penso em tudo que me constitui
tudo que começou numa casa de barro,
pintada de branco, rodeada por flores
rodeada por sonhos...
onde eu sentava pra ouvir as filosofias da minha vó
que continuam fazendo o mesmo sentido, mesmo depois que ela se foi
Sabedoria essa que nenhuma Universidade me ensinou
O que ela diria se pudesse ver o que hoje eu sou?
Tomaríamos um chá
Faríamos alguma comida com abacate
E andaríamos pelo jardim
A rede balança e tem som de música
O som dos passos da casa cheia pro forró que acontecia tendo as árvores como teto
Abraços e beijos que não cabem em palavras
A rede balança
e eu adormeço
Minha mãe guarda o livro que seguro nas mãos
Tenho lembranças
Que não balançam meu chão.


               Cíntia Maria

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