segunda-feira, 18 de julho de 2016

Domingo

Domingo de um mês qualquer
Visto uma camiseta dos Beatles.
Sem ao menos ter bebido,
 uma sensação de embriaguez percorre meu corpo
Deito para ler um romance idiota de um escritor gaúcho desconhecido
Onde o personagem principal imita a minha vida monótona.
No livro um cara que trabalha num café no centro da cidade
         se apaixona – perdidamente – por uma patricinha linda
Assim como eu, o cara é aspirante a escritor,
                obsessivamente pensa na garota,
fica com ela, mas não sabe se a tem,
cita dia e noite escritores que ela não conhece e nem quer conhecer,
a garota, que não é dele, se sente especial,
                               amada,
mas cada encontro parece uma despedida.
No meu romance da vida real, são quase 2 horas da madrugada na Alemanha
Não, não estou na Alemanha,
Sigo na minha comunidade lacustre onde sempre estive
e onde sempre gostaria de estar se ela estivesse aqui
Mas, ela está na Alemanha e até a minh’alma venderia para poder ver novamente seu rosto
Na verdade, gostaria de estar em seus braços
Escutando o barulho do seu coração
                Que mais parece uma sinfonia de Bach.
Acontece, que diferente do romance gaúcho, eu não trabalho num café
E após 18 horas de plantão entre mortos,
feridos,
histéricos
e fóbicos
Deitei pra pensar na imagem mais bonita que povoa a minha mente
Ensaie poemas do Neruda e do Vinicius que não vou recitar
E calculei o tamanho do seu dedo que colocarei o anel representando o pedido que não fiz
O que ela quer de mim?
Apenas que eu não vá
Mas não tenho pra onde ir
Calculo as moedas no meu bolso
                e peço um açaí com gosto de abacate que me faz lembrar seu beijo
Talvez a minha vida se baseei num romance barato
Como o que tenho nas mãos
Publicado por alguma editora de universidade que a gente paga pra ser lido
E que sobra nas estantes,
                pelos cantos
Que ninguém deixará pros filhos
E nem indicará pro melhor amigo
Por alguma razão desisto do livro
Só não desisto do cheiro dos seus cabelos
Nem da lembrança da sua voz
Conto os dias no calendário e as horas que faltam pra sua chegada
 E então resolvo dormir para que que os dias se apressem
Como quem dorme com fome acreditando que acordará saciado.


Cíntia Maria 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Sofro de patologias
     estou enlouquecendo
Penso ao andar impaciente de um lado de ao outro 
A fome se foi
Há um misto de todas as sensações 
Meu coração dispara 
Vejo sua imagem
‘Não feche os olhos ou vou te beijar
As frases aparecem de forma confusa
Vozes cantam ao meu ouvido
Sofro de patologias
  estou me perdendo
preciso sair
mas quero tocar seu rosto
Nego a mim, nego aos meus
Mas não nego o brilho nos olhos
Nem os pés que insistem em dançar
            Sofro de patologias
sigo te querendo
 mesmo ao fim do contrato que diz que devo partir
volto
quero seus braços.
Sofro te patologias
te confundo com um anjo
seu cheiro permanece em mim
ainda que eu arranque as roupas
a pele
a vida.
Terapias não me encontram
Soluções não me animam
Sofro da patologia sem cura
a de seguir te amando


Cíntia Maria 
Há morte em todos os corredores que ando
Ouço gritos, vejo dores,
há um acúmulo de sensações que me corroem o corpo
e me transportam para nuvens que são silêncio.            
Um senhor a meia luz diz que sofro de ansiedades
Mas o que anseio?
Meu corpo ganha medidas, me envergonho no espelho
Sofro a ausência dos que não foram,
Choro sem lágrimas as dores que não são minhas.
Mas onde há vida para que eu possa poetizar o vazio que sinto
                                     O sorriso da praça;
O beijo dos namorados e
   crianças que brincam na chuva?
Onde há luz para que eu possa crer que vidas ressurgem?
Onde há verdades para que possa crer na amizade?
Me perco em rotinas traçadas para mim que nunca fiz,
em sonhos engavetados que nem eram meus.
Ouço barulho dos que choram fraturas,
                         Faturas,
                                       arrependimentos.
Tudo parece distante...
... não vejo afetos
Não há braços.
Mas ao longe escuto um canto de
uma Voz Doce que embala a Esperança.
Sento para ouvir
e passo a crer que a vida ainda não me engoliu
Não penso mais na cotação do dólar
A luz ressurge nos corredores mesmo quando a morte decidiu passar
                               Me resgatando do vazio;
                trazendo a pulsão da vida...
 um Anjo me sorri.


Cíntia Maria

‘ela


Ela tem perturbado meus dias,
  meus sonhos
Minhas fantasias e imaginações
Não sei ao certo se são os olhos
A cintura
                ou a mão que delicadamente ela coloca na barriga ao sorrir.
Talvez Neruda quisesse ser penteador dos seus cabelos;
Drummond fizesse dela Um Mito;
 Machado não encontraria nela a simulação
E Luís da Silva não sofreria de angústias ao enamorá-la.
Ela é poesia
Encanto
   e arte.
Falta-me tempo para celebrar todas as suas qualidades
Não sei ao certo se é a voz;
                               o sorriso;
         ou a doçura nos gestos.
Terna
  e-terna!
Não há nela o que eu não ame
Desde que me sorriu os passos são leves
Passei a conhecer as regras do amar, quando só conhecia as do escrever
Deixei o amor entrar
O canto...
...virou encanto
Sou menos que um poeta precário
 e não sei ao certo se ela me vê
quando discursa sobre termos de uma Ciência que desconheço
Junta os prefixos e sufixos com a mesma naturalidade que dança
E fala de mistérios, política
me bombardeia
                Eu que não compreendo
Contento-me em vê-la
 e até me apavoro...
    mas volto a ser a luz


que ela graciosamente acendeu.


Cíntia Maria

A mulher que espera

Há impaciência em todos os seus gestos Ela caminha Pede um café Procura meus olhos,        enquanto encaro o teto pensando que nunca ser...