Desejos e(m) Conflitos

"Os pensamentos me encurralaram e pediram para sair!" - Cíntia Maria

Quem pintou o mar de Maceió 
Pintou também os olhos dela
Não de azul ou verde
Mas trocou o pincel 
     e coloriu de mel
O fez com o mesmo cuidado 
E preservou a doçura dos armazéns portuários 
  que inunda o ar com o cheiro de açúcar 
Causando arrepio na nuca 
E o brilho dos seus olhos 
É mais bonito que o vento que sopra as velas dos pescadores 
E enrola os cabelos das meninas 
   que olham os pássaros que dançam alegres na praia 
Troco o bairro velho de Jaraguá 
Pra então admirar 
A moça que o céu confunde 
E faz meu mundo carrossel
E se é verdade Neruda desistiria da primavera por um olhar
      eu do mar abro mão 
Se quiseres me acompanhar.  

[Cíntia Maria]

É dia de festa 
Vejo na TV dezenas de bandas que não conheço 
Lá fora todos parecem felizes seguindo o trio.
Ela é meu Carnaval  
        que me sorri dançante com uma taça de vinho 
fazendo que eu esqueça a televisão
É dia de festa 
No meu coração há mais alegria do que há no de quem agradece a Dodô e Osmar 
Seus movimentos leves
  e seu corpo delicado
me fazem crer na existência de algum deus
Sobre seu corpo me deito com ternura 
É dia de festa 
Acarinho seus cabelos 
Olho em seus olhos
     e beijo seu sorriso 
Ela é meu Carnaval 
Quero ir ao Bonfim, à Penha ou à Capadócia
Quero agradecer ao amor que ela carrega em seus braços 
   e me devolve forma beijos 
É dia de festa
 ela é minha avenida; 
o bloco que na rua encanta foliões;
A fantasia que quero o ano todo vestir 
Ela é meu Carnaval 
E entre provocações e ciúmes
Ela sabe que a noto quando ri dos meus olhos apertados 
Me sinto afortunado 
É dia de festa
Um sambinha bom toca em meu coração quando escuto sua voz 
    e troco a multidão da ladeira 
Por essa companhia feliz 
Ela é meu Carnaval 
    e nada mais faz sentido sem sua presença 
O tempo passa numa velocidade incontrolável 
Mas hoje não sou um Bloco de um Eu sozinho 
Hoje sou uma Sapucaí em festa.  

Cíntia Maria

Não sei o que de fato ela é minha,
   mas sei que não sou poeta
    e em vão tanto dizer que a amo como Saramago amou Pilar
Ela especialista na arte de amar e não conhece Saramago,
mas deita em meu ombro pra ouvir
     só que hoje não quero falar
Beijo seu rosto e
digo num silêncio sem palavras que ela é minha casa
Que é a responsável por não me deixar morrer
Que vivi tudo que vivi pra chegar até seus lábios
As palavras não saem e escondo meu rosto em seus cabelos para que ela não veja as lágrimas que ousam cair
Não sei o que de fato ela é minha,
  mas estou com ela essa noite
E estarei amanhã quando acordar
Seus braços ainda estarão me envolvendo
     em forma de arco
Sua perna em minha barriga
E seu rosto em meu pescoço...
Direi que amo?
Que quero chamar sua mãe de sogra?
Que pensei pra nós um filho que espero que pareça com ela?
Não direi nada!
Olho seu rosto dormindo e me pergunto: como alguém pode ser ainda mais bonita assim?
Não sei o que de fato ela é minha,
    mas a amo em atropelos
Em crises de ciúmes nos bares da rua
Em pedidos desesperados
Em poemas de Drummond e textos de Vinicius
A amo quando em sonhos ela me aparece
Ou mesmo acordada quando não sei diferenciar
Não sei o que de fato ela é minha,
     mas no seu semblante o amor se personifica
Conto os dias com ela como quem escreve num diário uma aventura com final marcado
O desespero toma conta do meu corpo
Talvez ela não me queira amanhã
Direi tranquilamente que não me faltarão mulheres,
 mas as palavras de Saramago povoam a minha mente
'Se eu não tivesse conhecido ela?'
Não se trata de quantidade
Abraço seu corpo magrinho e ofereço tudo que ela quer
Não sei o que de fato ela é minha,
   mas talvez pra ela eu seja uma descoberta
Um amparo numa tempestade
No meu ouvido ela diz que sou seu maior segredo
Não sei dizer se isso é bom ou ruim
O dia clareia e eu estou com muito sono,
   mas ela já vem dançante com os meus sapatos
'Você precisa ir'
Penso em pedir uma garantia que nos veremos em outra semana
Ela não tem!
Seu porteiro já me conhece,
      talvez o único
Viro o rosto para não cumprimentá-lo
Sento para ver o mar
Lembro dos seus cuidados e seus carinhos
Das suas lágrimas de amor
Das nossas aventuras em um parque velho no Centro da Cidade
     e o sorriso me toma ao lembrar da sua voz;
Do seu corpo;
  da sua inteligência
e em vão tento quantificar o amor
Os pronomes possessivos  não a encantam
Meu amor
             Minha paz
Meu sonho
Não sei do que chamá-la
O mar não me deu respostas
Nem aquele senhor que me analisa a meia luz
Continuo sem saber de fato o que ela é minha
Talvez a minha maior escola
  e a melhor coisa que já me aconteceu.


[Cíntia Maria]

Muitas vezes somos vítimas de violência (física e verbal), traições, desrespeito, falta de consideração, desamor, ausência de cuidado e - incrivelmente - nos sentimos culpados. Chegamos a pensar que se não tivéssemos dito tal coisa a pessoa teria feito diferente, se tivessemos ido a um lugar diferente, se tivessemos insistido em algo ou não, se não estivéssemos usando tal roupa. Sentimos peso e culpa, quando na verdade deveríamos nos envergonhar pelo outro que não nos respeita, que nos viola, que não nos considera, que não pensa nas ações que podem nos afetar. Existe muito falso amor travestido de violência, egoísmo, arrogância e maldade. Ainda que isso nos afete por um tempo, jamais devemos deixar que essas pessoas roubem nossa paz, nossa serenidade, nosso verdadeiro "eu". Quem ama respeita, quem ama não sente prazer em ver suas lágrimas (só se for de emoção), quem ama pensa em você antes de agir com atitudes infantis, desrespeitosas e sente orgulho de você. Quem ama rompe com você antes de fazer qualquer atitude que leve ao seu sofrimento e não tenta te culpar pelos próprios erros se colocando como vítima do que não merece ouvir quando se merece ouvir. Mas que toda lição que a vida nos prega sirva sempre de exemplo (ainda que doloroso) de maturidade, de conhecimento e de evolução mental ou espiritual. O verdadeiro amor sempre se mostra. O bem sempre encontrará o bem. O seu coração sempre se conectará a corações semelhantes. Que possamos viver para além das relações líquidas as relações verdadeiras e reais. As relações que não se descartam e que não são movidas pelo egocentrismo. A vida sempre terá um buraco na frente e invariavelmente cairemos nele. É importante levantar, cuidar dos ferimentos e seguir. 

[Cíntia Maria]

Há morte em todos os corredores que ando
Ouço gritos, vejo dores,
há um acúmulo de sensações que me corroem o corpo
e me transportam para nuvens que são silêncio.            
Um senhor a meia luz diz que sofro de ansiedades
Mas o que anseio?
Meu corpo ganha medidas, me envergonho no espelho
Sofro a ausência dos que não foram,
Choro sem lágrimas as dores que não são minhas.
Mas onde há vida para que eu possa poetizar o vazio que sinto
                                     O sorriso da praça;
O beijo dos namorados e
   crianças que brincam na chuva?
Onde há luz para que eu possa crer que vidas ressurgem?
Onde há verdades para que possa crer na amizade?
Me perco em rotinas traçadas para mim que nunca fiz,
em sonhos engavetados que nem eram meus.
Ouço barulho dos que choram fraturas,
                         Faturas,
                                       arrependimentos.
Tudo parece distante...
... não vejo afetos
Não há braços.
Mas ao longe escuto um canto de
uma Voz Doce que embala a Esperança.
Sento para ouvir
e passo a crer que a vida ainda não me engoliu
Não penso mais na cotação do dólar
A luz ressurge nos corredores mesmo quando a morte decidiu passar
                               Me resgatando do vazio;
                trazendo a pulsão da vida...
 um Anjo me sorri.


Cíntia Maria

Será meio tarde pra
largar tudo e escrever versos nas ruas
Para putas e bêbados,
Com aquele cabelo moicano que nunca cortei?
A esquerda e não a direita
Cheguei na idade dos arrependimentos
Comecei bloqueando pessoas
datas
lembranças,
emoções...
Daquele aceno dado a moça na praça
Do violão que me deram e já não me servia
De ter saído naquele dia chuvoso
Do falso amigo que chamei de irmão,
A esquerda e não a direita
 A vida me deu lições que demorei a entender.
Arrependimentos me doem a alma
Me apertam e me perguntam como teria sido se ao contrario fosse
A esquerda e não a direita
Me arrependo de não ter sido eu
Cheguei a cogitar se os meus pais se arrependem de mim
e se outros mais se arrependem de mim
se a Existência se arrepende de mim
Dobro a rua da solidão
Com marcas no joelhos e dores no pensamento
A esquerda e não a direita
Me arrependo de ter nascido,
                Como se minha fosse a escolha
Das frases que troquei com o moço idiota
                               Quando esperávamos o trem para Lugar Nenhum 
A esquerda e não a direita
Privação,
                Frustração,
Castração.
Como um velho que vê os cabelos mudando de cor,
       perco o brilho e os sensações.
Vago na lama dos becos
Procurando sorrisos que não estão lá
Nem esquerda e nem direita
Sigo sozinha sem deus... nem esperança.


Cíntia Maria 

Não há luz

Meu celular super moderno não possui mais bateria
Não uso mais rádio de pilha
Nem tenho disponibilidade para conversar pessoalmente
Mal consigo enxergar minha gata branca
 pedindo afeto na escuridão
A vela brilha sozinha obrigando a me concentrar somente nela
Não lembro a última vez que me fixei em algo só
Havia gente que estudava em noites sem luz,
                               mas possuía pensamentos iluminados
Não muito longe meus pais viveram sem eletricidade
                Reunidos na porta,
                               contavam histórias
admiravam a lua,
 tinham medo de lendas
apreciavam o diálogo e ouviam os idosos.
Hoje aprecio o meu notebook, meu iPad, meus jogos
Não que eles sejam ruins
Mas o que eles me roubaram que sem eles fico perdida?
Vivo com presentes que são distantes
Perdi o brilho dos olhos
                o som do violão na porta de casa
o sorriso barulhento das crianças
Troquei o cinema por um filme online
Temos tudo a um clique
                e permanecemos intocáveis
sozinhos...
Não há luz...
Nem elétrica, nem a que inspira versos
Não há cheiro
E todo o colorido é incolor
Não há cheiro de pipoca na praça
                Nem no cangote da moça
E penso no colorido dos ícones do meu celular
Que se ofuscam pelo brilho da vela
O que eles me roubaram?
Continuo a me perguntar
Onde estão as pessoas que são Poesia?
Só vejo as que se escondem na virtualidade fingindo coragem
Brigas em torno do desconhecido novo ídolo da tv
Não existem braços para me apertar
As salas de bate papo existem e ninguém se conhece
 O sarau já não existe mais
Não há luz e sou obrigada a pensar
O que a eles me roubaram?
Levanto-me e sento ao lado dos meus pais na porta
Eles me contam com saudade os tempos vividos
Apontam com o queixo a escuridão,
                mas há neles um brilho...
A chuva cai mansinha
reclamamos dos mosquitos
sinto falta de um tempo que não era meu
Vejo um jovem rapaz que me corteja tirando o chapéu,
                me recita um belo poema enquanto aceno da janela
... o poste se acende e me arranca os pensamentos
Caminho para escuridão da luz.

[Cíntia Maria]

http://desejosemconflitos.blogspot.com/

Que preço você pagaria pelo seu desejo?

Minha foto

Eu’s

São tantos eu’s contido nessa minha persona
Que ora penso ser uma imagem narcisista refletida num espelho
Ora penso ser um pintor que pinta a si mesmo num quadro rodeado por meninas
E chego a pensar que serei imortalizada como uma obra de arte
Porém, mudo de idéia e já me vejo espectadora
O que sou agora é um olhar inquietante sobre mim de um observador que desconhece o saber e me fita com angústia.
E o meu eu se torna agora um olhar invisível da visão
Quantas hipóteses há para me definir? Não sei.
Sou agora um desejo de ser um personagem parte de uma pintura junto à família real
Sou por fim aquela que nunca se pode ter uma resposta precisa.

Cíntia Maria

Siga, deseje, conflite-se!

O desejo

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