quarta-feira, 17 de maio de 2017

Com o esteto no pescoço
  saindo do plantão
Ela lê meus poemas
Não estão na televisão
    nem no rádio
Não sou grande poeta
Nem mesmo grande em qualquer outra coisa
A idade ainda não me pesa,
  mas acordo com as dores de existir
       e sigo pensando nela
No carro ela ajeita o jaleco
Seu semblante é sereno
   sua agenda é cheia
Em vão procuro o celular a espera de um chamado
Desisto novamente das promessas que não fiz
Ela canta
    pensando na roupa que usará logo mais
Reclama da dieta
  como se houvesse em seu corpo algum  defeito
Certamente se pudesse vê-la agora,
     diria o quanto está linda
"Deixe de bobagem"
Ela me diria,
enquanto coloca o cabelo atrás da orelha.
Saindo do plantão
   com o esteto no pescoço
Ela vê doçura em meus poemas
Que não estão na Academia
Nem serão premiados
    Rolo na cama sentindo seu perfume
Enquanto em casa ela se atrapalha na cozinha
Com amor
     tempera não só a comida,
  mas também os meus dias
Tirando o esteto do pescoço
     ela senta
       e novamente lê meus poemas
Acredita na graça e acredita em mim
Não pensem que não lhe apresentei
    o Pessoa, Neruda ou Drummond
Mas ela prefere os meus
Toco-lhe a alma e o coração
Levanto da cama
Rabisco novos versos
      Sem esteto no pescoço
Ela lê meus poemas e sorri.

[Cíntia Maria]

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meu meio sorriso 
       e meus olhos baixos 
Anunciam - que mais uma vez - vou dizer o quanto ela é linda
Como uma criança aprecia as estrelas no céu 
  em silêncio conto os sinais em seu rosto
Rasguei livros de poetas solitários 
     E pra falar de amor 
   abri janelas 
e cultivei jardins 
Sinto que morro se ela me faltar 
Talvez ela saiba disso quando um carinho em meu rosto diz que tudo está bem 
Os sentidos se perdem 
e docemente ela me sorri 
  quando sabe que meus lábios - mais uma vez - vão dizer o quanto ela é linda 
Meus olhos baixos 
   e meu meio sorriso 
Entregam o nervosismo do meu coração  
Talvez ela me ache aquele roqueiro exagerado da década de 80 jogado sem pai e nem mãe 
  bem na porta do seu apartamento 
Talvez ela verifique minhas gavetas procurando cicuta
 ou somente saiba que meu meio sorriso e meus olhos baixos 
    - mais uma vez -  anunciam o quanto ela é linda. 

Cíntia Maria

segunda-feira, 20 de março de 2017

Quem pintou o mar de Maceió 
Pintou também os olhos dela
Não de azul ou verde
Mas trocou o pincel 
     e coloriu de mel
O fez com o mesmo cuidado 
E preservou a doçura dos armazéns portuários 
  que inunda o ar com o cheiro de açúcar 
Causando arrepio na nuca 
E o brilho dos seus olhos 
É mais bonito que o vento que sopra as velas dos pescadores 
E enrola os cabelos das meninas 
   que olham os pássaros que dançam alegres na praia 
Troco o bairro velho de Jaraguá 
Pra então admirar 
A moça que o céu confunde 
E faz meu mundo carrossel
E se é verdade Neruda desistiria da primavera por um olhar
      eu do mar abro mão 
Se quiseres me acompanhar.  

[Cíntia Maria]

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ela é meu Carnaval

É dia de festa 
Vejo na TV dezenas de bandas que não conheço 
Lá fora todos parecem felizes seguindo o trio.
Ela é meu Carnaval  
        que me sorri dançante com uma taça de vinho 
fazendo que eu esqueça a televisão
É dia de festa 
No meu coração há mais alegria do que há no de quem agradece a Dodô e Osmar 
Seus movimentos leves
  e seu corpo delicado
me fazem crer na existência de algum deus
Sobre seu corpo me deito com ternura 
É dia de festa 
Acarinho seus cabelos 
Olho em seus olhos
     e beijo seu sorriso 
Ela é meu Carnaval 
Quero ir ao Bonfim, à Penha ou à Capadócia
Quero agradecer ao amor que ela carrega em seus braços 
   e me devolve forma beijos 
É dia de festa
 ela é minha avenida; 
o bloco que na rua encanta foliões;
A fantasia que quero o ano todo vestir 
Ela é meu Carnaval 
E entre provocações e ciúmes
Ela sabe que a noto quando ri dos meus olhos apertados 
Me sinto afortunado 
É dia de festa
Um sambinha bom toca em meu coração quando escuto sua voz 
    e troco a multidão da ladeira 
Por essa companhia feliz 
Ela é meu Carnaval 
    e nada mais faz sentido sem sua presença 
O tempo passa numa velocidade incontrolável 
Mas hoje não sou um Bloco de um Eu sozinho 
Hoje sou uma Sapucaí em festa.  

Cíntia Maria

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Não sei o que de fato ela é minha,
   mas sei que não sou poeta
    e em vão tanto dizer que a amo como Saramago amou Pilar
Ela especialista na arte de amar e não conhece Saramago,
mas deita em meu ombro pra ouvir
     só que hoje não quero falar
Beijo seu rosto e
digo num silêncio sem palavras que ela é minha casa
Que é a responsável por não me deixar morrer
Que vivi tudo que vivi pra chegar até seus lábios
As palavras não saem e escondo meu rosto em seus cabelos para que ela não veja as lágrimas que ousam cair
Não sei o que de fato ela é minha,
  mas estou com ela essa noite
E estarei amanhã quando acordar
Seus braços ainda estarão me envolvendo
     em forma de arco
Sua perna em minha barriga
E seu rosto em meu pescoço...
Direi que amo?
Que quero chamar sua mãe de sogra?
Que pensei pra nós um filho que espero que pareça com ela?
Não direi nada!
Olho seu rosto dormindo e me pergunto: como alguém pode ser ainda mais bonita assim?
Não sei o que de fato ela é minha,
    mas a amo em atropelos
Em crises de ciúmes nos bares da rua
Em pedidos desesperados
Em poemas de Drummond e textos de Vinicius
A amo quando em sonhos ela me aparece
Ou mesmo acordada quando não sei diferenciar
Não sei o que de fato ela é minha,
     mas no seu semblante o amor se personifica
Conto os dias com ela como quem escreve num diário uma aventura com final marcado
O desespero toma conta do meu corpo
Talvez ela não me queira amanhã
Direi tranquilamente que não me faltarão mulheres,
 mas as palavras de Saramago povoam a minha mente
'Se eu não tivesse conhecido ela?'
Não se trata de quantidade
Abraço seu corpo magrinho e ofereço tudo que ela quer
Não sei o que de fato ela é minha,
   mas talvez pra ela eu seja uma descoberta
Um amparo numa tempestade
No meu ouvido ela diz que sou seu maior segredo
Não sei dizer se isso é bom ou ruim
O dia clareia e eu estou com muito sono,
   mas ela já vem dançante com os meus sapatos
'Você precisa ir'
Penso em pedir uma garantia que nos veremos em outra semana
Ela não tem!
Seu porteiro já me conhece,
      talvez o único
Viro o rosto para não cumprimentá-lo
Sento para ver o mar
Lembro dos seus cuidados e seus carinhos
Das suas lágrimas de amor
Das nossas aventuras em um parque velho no Centro da Cidade
     e o sorriso me toma ao lembrar da sua voz;
Do seu corpo;
  da sua inteligência
e em vão tento quantificar o amor
Os pronomes possessivos  não a encantam
Meu amor
             Minha paz
Meu sonho
Não sei do que chamá-la
O mar não me deu respostas
Nem aquele senhor que me analisa a meia luz
Continuo sem saber de fato o que ela é minha
Talvez a minha maior escola
  e a melhor coisa que já me aconteceu.

[Cíntia Maria]

domingo, 4 de dezembro de 2016

Muitas vezes somos vítimas de violência (física e verbal), traições, desrespeito, falta de consideração, desamor, ausência de cuidado e - incrivelmente - nos sentimos culpados. Chegamos a pensar que se não tivéssemos dito tal coisa a pessoa teria feito diferente, se tivessemos ido a um lugar diferente, se tivessemos insistido em algo ou não, se não estivéssemos usando tal roupa. Sentimos peso e culpa, quando na verdade deveríamos nos envergonhar pelo outro que não nos respeita, que nos viola, que não nos considera, que não pensa nas ações que podem nos afetar. Existe muito falso amor travestido de violência, egoísmo, arrogância e maldade. Ainda que isso nos afete por um tempo, jamais devemos deixar que essas pessoas roubem nossa paz, nossa serenidade, nosso verdadeiro "eu". Quem ama respeita, quem ama não sente prazer em ver suas lágrimas (só se for de emoção), quem ama pensa em você antes de agir com atitudes infantis, desrespeitosas e sente orgulho de você. Quem ama rompe com você antes de fazer qualquer atitude que leve ao seu sofrimento e não tenta te culpar pelos próprios erros se colocando como vítima do que não merece ouvir quando se merece ouvir. Mas que toda lição que a vida nos prega sirva sempre de exemplo (ainda que doloroso) de maturidade, de conhecimento e de evolução mental ou espiritual. O verdadeiro amor sempre se mostra. O bem sempre encontrará o bem. O seu coração sempre se conectará a corações semelhantes. Que possamos viver para além das relações líquidas as relações verdadeiras e reais. As relações que não se descartam e que não são movidas pelo egocentrismo. A vida sempre terá um buraco na frente e invariavelmente cairemos nele. É importante levantar, cuidar dos ferimentos e seguir. 

[Cíntia Maria]

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Há morte em todos os corredores que ando
Ouço gritos, vejo dores,
há um acúmulo de sensações que me corroem o corpo
e me transportam para nuvens que são silêncio.            
Um senhor a meia luz diz que sofro de ansiedades
Mas o que anseio?
Meu corpo ganha medidas, me envergonho no espelho
Sofro a ausência dos que não foram,
Choro sem lágrimas as dores que não são minhas.
Mas onde há vida para que eu possa poetizar o vazio que sinto
                                     O sorriso da praça;
O beijo dos namorados e
   crianças que brincam na chuva?
Onde há luz para que eu possa crer que vidas ressurgem?
Onde há verdades para que possa crer na amizade?
Me perco em rotinas traçadas para mim que nunca fiz,
em sonhos engavetados que nem eram meus.
Ouço barulho dos que choram fraturas,
                         Faturas,
                                       arrependimentos.
Tudo parece distante...
... não vejo afetos
Não há braços.
Mas ao longe escuto um canto de
uma Voz Doce que embala a Esperança.
Sento para ouvir
e passo a crer que a vida ainda não me engoliu
Não penso mais na cotação do dólar
A luz ressurge nos corredores mesmo quando a morte decidiu passar
                               Me resgatando do vazio;
                trazendo a pulsão da vida...
 um Anjo me sorri.


Cíntia Maria

Com o esteto no pescoço   saindo do plantão Ela lê meus poemas Não estão na televisão     nem no rádio Não sou grande poeta Nem mesmo ...